
Desde há muito a vivência clubista dos adeptos encarnados encerra em si mesmo um manancial de medos. É o medo angustiante da nomeação do Sr. árbitro, porque de uma forma ou outra está sempre conotado com o sistema. É o medo da intempérie que pode estragar o tapete de jogo. É o medo da falta de estofo que tolhe o cérebro dos nossos jogadores, impedindo-os de fruir o seu talento. É o medo do ataque ao 1º lugar, porque por tradição falha sempre. É o simples receio de ter jogo ao fim de semana, pois antes valia jogar a selecção, que ao menos descansávamos o coração. É o medo de tudo. De um clube de gente brava e generosa, viramos um clube de adeptos “bananas”, que ás custas de muita incompetência e de uma vivência derrotista tem de aceitar o destino sem reagir.
Alguns adeptos dos nossos rivais dizem-me à boca cheia, alardeando um humor de mau gosto, que o sonho deles seria um terramoto em Lisboa que destruísse o belo estádio da luz, numa triste alusão histórica a desgraçados acontecimentos do passado. Uma coisa é certa: o tal terramoto está a acontecer e tem como epicentro 38.752923, -9.185205, o centro do relvado do estádio da luz. É um terramoto futebolístico cujas réplicas sucedem-se com igual intensidade e que ameaçam destruir por completo tudo o que a força telúrica encontra pelo caminho.
Uma coisa “ele” já começou a destruir: o medo dos adeptos encarnados quanto ao potencial da equipa. Da equipa fraca, medíocre e incapaz da época passada apenas resta o esqueleto. Um novo Benfica nasceu; perdão, renasceu, porque este sim é o Benfica que sempre conheci no passado: forte, capaz, impiedoso e vencedor.
Curiosamente, ontem senti um medo que há muito não reconhecia: o medo de não puder ver a equipa em acção. A ZonTv deixou de funcionar na zona onde resido, desde a manhã até quase à hora do jogo. E vi-me na angústia de não saber onde ver o jogo, porque o Meo não está muito implantado por aqui, arriscando-me a ter de ouvir o relato, algo que não convém muito para quem tem problemas com a tensão arterial.
Perto da hora do jogo recebi a boa nova da reparação da avaria e no café junto a casa assisti ao aguardado ataque ao 1º lugar.
Bom jogo com um bom Nacional, nem posicionado, quase tão bem como eu em frente a um belo televisor com a tecnologia moderna HD. Pena que os fiscais de linha, não disponham de tal tecnologia, pois os seus erros foram demasiadamente suspeitos por penalizarem apenas o Benfica. Pese a replica, não telúrica, dos nacionalistas, comandados por um excelente Ruben Micael, passado o espaço de tempo que os jogadores encarnados demoram a encontrar-se, o Benfica começou paulatinamente a oprimir o seu adversário. Este teve o último esbracejar de alguma pujança na discussão estéril pós 1ª parte, com algum sururu na entrada do túnel de acesso aos balneários. E aí acabou-se a energia e ficaram à mercê do predador. Os meus vizinhos do lado, menos pacientes clamavam por uma maior amplitude exibicional do Benfica, porventura para escorraçar medos, neste caso o do empate caído dos céus. Aconselhei-lhes calma, pois a equipa do Benfica é mesmo assim, apalpa terreno, solidifica posições e depois parte à caça. Sem dó nem piedade aniquilou pobres insulares, que levaram para contar, com erros da equipa de arbitragem, que penalizaram em especial o simples adepto do futebol.
Sei porque gosto de história, que os impérios nunca são amados, pelos outros, claro. Pelo contrário são odiados e combatidos de forma veemente. Mas caramba, estamos a falar de futebol. Sei que dá muito dinheiro a ganhar a muita boa e má gente, mas não educa nem mata a fome a quem necessita. É um jogo fantástico, com instituições grandiosas, servidas por gente fantástica, que contribui ou não, para a nossa felicidade. Mas o ódio com que os não benfiquistas nutrem pelo clube é absolutamente paranóico. Já nem falo do Manuel Machado que cedeu à armadilha que o jornalista lhe fez, e tentou estender a Jorge Jesus, tendo este, porventura seguro no elan da goleada, maior arcaboiço para resistir. Falo dos adeptos em geral, e em especial nos que são pagos para entreter a populaça em programas que se queriam de qualidade na análise dos jogos, e que se tornam apenas em mesas de cafés mais sofisticadas. Ver e ouvir Eduardo Barroso e Pôncio Monteiro é uma forma de masoquismo que devia ser penalizada como contravenção grave. Uma coisa tem de bom, retira de cima das pessoas a capa de presunção e boas maneiras que exibem no dia a dia, sendo bajulados pela sociedade em geral, quando no fundo são de uma menoridade intelectual de fazer corar de vergonha qualquer emplastro”. Graças a Deus vi finalmente um Será, se calhar ainda com a adrenalina da vitória camarária a defender com argúcia o clube, porque mais um pouco teria a sensação que a TV HD do Café Flores me tinha enganado, e que afinal a vitória do Benfica tinha resultado de uma vigarice qualquer.
Eu sei que o medo tolhe os movimentos e a capacidade de pensar. Mas podiam ao menos disfarçar um pouco. Todos os dias sou interpelado por andrades, que tentam exorcisar os seus medos e angustias com as chamadas conversas de engana tolos. Sei bem o que eles pensam e esperam. Sei que eles desesperam com as nossas vitórias. Sei que muitos têm passado mal as noites com o sono goleado pelo desespero. E confesso-me contente com isso.
Se não sabem o significado do desportivismo, bem feita. Cada um faz a cama com que se deita. Eu cá deitei-me com um sorriso nos lábios. O sorriso da vitória. Descobri que finalmente estou a vencer os meus medos também…e de goleada. Calmamente, sem grandes alardes e ilusões, vou aguardar pacientemente semana a semana que o Benfica torne a encontrar o seu destino. O da vitória.
PS: Fábio Coentrão acompanha-me tambem. Quem sabe, ele leu aquilo que lhe escrevi, um dia.
Notlim falou…