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“Nem a vi, é verdade. Mas nós fomos à final, e vocês?”

Faz amanhã 25 anos que Carlos Manuel qualificou Portugal para o Mundial-86 na Alemanha.

A precisar de ganhar descansadamente para encarar o jogo decisivo com a RFA, quatro dias mais tarde, Portugal viu-se aflito para ganhar a Malta num jogo de fraquíssima qualidade técnica. A inépcia e a distracção dos malteses contagiaram os portugueses, como se constatou no golo de Frederico, na própria baliza. O importante era ganhar para continuar a pensar no Mundial-86 e Portugal só conseguiu os desejados dois pontos a oito minutos do fim, quando Gomes marcou, aproveitando uma saída extemporânea do guarda-redes maltês. E foi aqui que nasceu a célebre frase de José Torres: “Matematicamente, a qualificação ainda é possível, embora só um milagre nos levará ao México… Mas deixem-me sonhar.”

Ok, muito bem. Vamos sonhar. Vamos sonhar que amanhã é 16 de Outubro de 1985. No grupo 2 de qualificação para o Mundial do México há dois jogos decisivos: na capital checa joga a Suécia; horas mais tarde, em Estugarda, a já apurada RFA defronta Portugal, com menos um ponto que os suecos. Já sem hipóteses de qualificação, a Checoslováquia lembra-se de levar de vencida o conjunto nórdico (2-1), pelo que a partida de Estugarda passa a concitar as atenções gerais. E agora? Carlos Manuel pega na bola, passa o meio-campo, ninguém o agarra e ele atira fortíssimo a 25 metros da baliza, onde está um senhor chamado Harald Anton (Toni) Schumacher. E depois?

Bem, depois o Schumacher conta ao i. “Nem a vi [a bola]. Foi um remate daqueles felizes. Sinceramente, não estava à espera daquele míssil. E a bola entrou na gaveta. Foi um golo bonito, mas naquela altura fiquei fulo. A RFA nunca tinha perdido em casa na fase de qualificação do Mundial [36 vitórias e quatro empates] e fiquei ligado a esse momento. Foi a vossa vitória impossível, não foi?” Sim, foi, respondemos do outro lado. “Impossível é nós não termos marcado um golo que fosse nos 30 e tal minutos que restavam. Vocês encolheram-se e tiveram sorte em não levar o golo do empate. Mas nesse dia vocês foram abençoados. Pelo guarda-redes, Bento. E pelos postes. Atirámos três vezes ao poste. Vocês nem saíam da vossa área.”

Rimo-nos. Schumacher responde, em inglês:

“E ouça lá… No Mundial-86, nós fomos à final. E vocês?”

Fomos eliminados por Marrocos na fase de grupos.

Era só para saber.

Mas repare: se tivéssemos ganho a Marrocos, os oitavos-de-final éramos nós contra vocês. E aí?

Ai, ai, ai. Sonha, sonha…

Pronto, nós fomos para casa. E vocês?

É como lhe digo, fomos à final. Eliminámos Marrocos (1-0), México (nos penáltis) e França (2-0).

E à final com Maradona?

Sim, e perdemos 3-2.

Sofreu um golo esquisito?

É verdade, num livre da direita do ataque deles saí da baliza mas não interceptei a bola e apareceu o central deles [“Tata” Brown] a marcar.

Mas como, se o Schumacher era o rei das bolas pelo ar?

No México o ar é mais rarefeito.

A sério?

Sim. A bola atinge velocidade e altura superiores ao normal.

A sério?

Então? Pergunte aos cientistas! Porque é que acha que o Bob Beamon saltou 8,90 metros no salto à vara nos Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México? Pelo mesmo motivo. Altura e velocidade do corpo. Imagine uma bola de futebol…

Esse lance deixa marcas?

A mim, durante o jogo, não. Mas depois, sim. Também depende do resultado. Como perdemos, fiquei deprimido. Nem as férias me fizeram bem. Quando voltei para cumprir a época 1986-87 [no Colónia] tinha medo das bolas, dos cruzamentos, dos adversários. Que diabo, eu era o guarda-redes, o que veste uma camisola diferente.. Se tu ganhas, és o herói da noite, o rei. Se perdes, és o culpado, o solitário. É a crueldade máxima.

Foi por isso que escreveu aquele livro?

Em parte sim.

Mas o livro fala de morte.

Pois. Só a morte parecia afugentar a depressão. E a pressão. Todas as semanas era posto à prova no campeonato alemão e isso incomodava-me. Voltei a sentir essa comichão na alma depois da morte do Enke. Penso muito nele.

O guarda-redes do Benfica?

Sim, não há outro. Que vida a dele. Perdeu a filha e isso desnorteia qualquer um. Depois a pressão semanal dos jogos…

E agora, o Schumacher é quem?

Para parafrasear os pais de algumas crianças que me vêem na rua e não me conhecem, “já fui o melhor guarda-redes do mundo, sou o Toni Schumacher, o Oliver Kahn de antigamente…”

In I
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16 Responses to ““Nem a vi, é verdade. Mas nós fomos à final, e vocês?””


  1. 1 Preacher
    15/10/2010 às 12:26

    Este belo texto e entrevista é algo que toca-me e deixa saudades de outros tempos. Hoje em dia o futebol já não possui o encanto de antigamente, e a razão é simples, industrializou-se em excesso.

    O futebol bem jogado técnicamente desapareceu, os duelos de clubes e selecções que perduraram para a história também, o próprio conceito de jogador mítico diluiu-se no tempo (como este Schumacher), os treinadores que inovavam e que se tornaram em autênticas referências intemporais também se perderam…

    Alguns de vós poderão dirigir-se a mim e afirmar que daqui a 20 anos teremos figuras actuais que se tornaram em mitos, mas tenho muitas dúvidas.

    Dos últimos 10 anos, existiu alguma final da Champions, do Campeonato da Europa ou do Mundo que seja memorável? Tirando o Bayern-Manchester disputado na Catalunha, não…

    E jogadores de carisma? Zidane? Messi?

  2. 15/10/2010 às 13:36

    Qual Oliver Khan de antigamente. O Schumacher é simplesmente um dos melhores guarda-redes, as suas magnificas defesa ficam na memória de qualquer um. Muito melhor que Oliver Khan, ele está a ser modesto quando se compara com o Khan. Ao nível dele só um Jean Marie Paff, um Michel Preud’homme, ou um Yachin haverá mais dois ou três de que poderia falar, mas só me lembrei destes.

    P.S. Faltou a luz na minha terra nessa noite, e acabei por ver só o sufoco que os Alemães fizeram à baliza de outro excepcional guarda-redes e que brilhou nessa noite, estou a falar do Bento. Na selecção alemão havia um médio que se chamava Pierre Litibarski (espero não me ter enganado a escrever o nome), um jogador de outro mundo, eu era fã incondicional dele.

    • 3 tabakaebola
      15/10/2010 às 13:59

      O Pierre era um extremo excelente…ainda foi campeão do mundo em 90…

  3. 4 Tosta Mística
    15/10/2010 às 13:54

    Um dos meus idolos do futebol, só isso!

    No fim de semana passado a revista do Expresso trazia um artigo sobre jogadores famosos apenas como suplentes, que quase nunca foram titulares, apesar da sua qualidade.

    E um dos reservistas referidos era o nosso guarda redes Delgado, tapado pelo saudoso Bento.

    Contavam que Eriksson explicou a Delgado como gostava das suas qualidades, mas que Bento, apesar da sua idade – quase 40 – estava a passar pela sua melhor fase de sempre, ao nivel de Sepp Mayer!

    Sim, esse que me parece ser o melhor guarda redes alemão de sempre…

    • 5 tabakaebola
      15/10/2010 às 13:58

      o Delgado foi esperto…aproveitou a situação e tirou um curso superior…mas era uma boa esperança..

      • 6 Tosta Mística
        15/10/2010 às 14:07

        Graças a esse curso, aprendeu a ler e escrever (sobretudo os recadinhos do Vieira – maledicência, mea culpa)

  4. 7 Luis Rosario
    15/10/2010 às 14:01

    Gostei do pramatismo alemão versus o sonho português, presente tanto à 25 anos atrás como agora…

    Só um pormenor da entrevista – não sei se foi o Schumacher ou erro de tradução, mas Bob Beamon saltou 8,90 metros em comprimento, não no salto à vara…

    • 8 tabakaebola
      15/10/2010 às 14:02

      é verdade…tens razão…

    • 9 Tosta Mística
      15/10/2010 às 14:09

      Se fosse salto ao Vara, teria de ser com um robalo com 8.90 metros de comprimento…

      • 10 tabakaebola
        15/10/2010 às 15:11

        Pobre do Sergey Bubka.. 🙂

  5. 11 tabakaebola
    15/10/2010 às 14:01

    o próximo post a sair é sobre…Glenn Stromberg..

  6. 12 Hugo Miguel Franco
    15/10/2010 às 14:54

    Não foi este jogador que colocou um jogador da selecção francesa paraplégico?

    • 13 tabakaebola
      15/10/2010 às 14:57

      quase…quase…

      • 14 tabakaebola
        15/10/2010 às 14:57

        …pq 2 anos depois o tal francês ajudou a equipa francesa a correr-nos do euro84… 🙂

  7. 15 Hugo Miguel Franco
    16/10/2010 às 01:38

    Não posso confiar no Gabriel Alves.

  8. 16 grandelx
    18/10/2010 às 11:40

    O Schumacher é um dos melhores guarda-redes da historia para mim, lembro-me perfeitamente deste jogo e do mundial, era o meu guarda redes a jogar o subuteo, foi um dos meus primeiros herois.


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