04
Nov
10

O mito e a realidade!

Uma mentira repetida vezes sem conta transforma-se em verdade. É um facto. Eis como se desmonta uma verdade, ao ponto de se regressar à mentira. Segue um texto encontrado na Internet, cujo autor desconheço. Surpreendam-se… Leiam cada linha com a atenção e entusiasmo com que vêem o Benfica jogar…

 

Nos últimos tempos, tem sido comum encontrar espalhada pela blogosfera uma redonda e persistente mentira, segundo a qual o Benfica seria um clube conotado com o antigo regime ou protegido pelo mesmo. Em cerca de trinta anos de adepto de futebol nunca tinha ouvido tal coisa, e foi preciso aparecerem uns iluminados, fanatizados e instrumentalizados por um certo poder, para ver lançada no ar essa atoarda, como se se tratasse da mais cristalina das evidências.

A afirmação é tão absurda que não mereceria mais que o silêncio. Mas ainda assim, não gostaria de perder a oportunidade de deixar aqui algumas notas, para que os mais novos não se deixem enganar, e a partir das quais se pode ver o ridículo em que caem aqueles que, por fraqueza de espírito, ingenuidade ou ignorância, se deixam manipular e fanatizar por quem deles se serve e assim perpetua um poder bem mais absoluto do que devia, e para o qual a ética e a justiça estão, não na ponta da espingarda como diria Mao-Tse-Tung, mas sim numa qualquer comemoração triunfante na Alameda das Antas. Vejamos:

1 – Será o menos importante, mas para começar, a cor vermelha diz bastante. Salazar, que nem sequer gostava de futebol, nunca patrocinaria um clube com as cores da sua figadal inimiga União Soviética. A comunicação social até foi forçada a utilizar a palavra “encarnados” para descrever o Benfica, de modo a não conjugar “vermelhos” com “vencedores”, o que poderia ser dramático para o regime. Ao contrário do Real Madrid – que usava cores queridas aos falangistas de Franco -, o Benfica usava as cores da revolta. Diria até que, por exemplo, o azul e o branco ficariam esteticamente bem melhor com toda a simbologia salazarista.

2 – O Estado Novo teve início em 1926 e começou a desintegrar-se em 1961 com as crises estudantis e a guerra colonial. Pois foi precisamente na fase decadente do antigo regime que o Benfica emergiu como força dominante do desporto português.Nos primeiros vinte e cinco campeonatos nacionais (entre 1934 e 1959, ou seja o período mais relevante do Salazarismo), a lista de vencedores é encabeçada pelo Sporting com 10 títulos, seguindo-se o Benfica com 9, o F.C. Porto com 5 e o Belenenses com 1. O Benfica tinha portanto vencido 36 % dos campeonatos – em 2008 tem 42%…

3 – O 25 de Abril foi, como todos sabem, em 1974. Pois nas três épocas seguintes o Benfica foi tricampeão!. Nos vinte anos a seguir à revolução o clube da Luz, não parecendo sentir nada o fim da ditadura, venceu 10 campeonatos, 7 taças, e foi a 3 finais europeias. No mesmo período o F.C.Porto conquistou 8 campeonatos, 5 taças e foi a 2 finais europeias. O Sporting venceu 2 campeonatos e 2 taças.A crise benfiquista, e a consequente hegemonia portista, deu-se apenas devido às sucessivas má gestões de Jorge de Brito (neste caso mais de quem o acompanhava), e sobretudo, Manuel Damásio e Vale e Azevedo que, paralelamente a outros aspectos, abriram campo aos triunfos portistas das últimas décadas.

4 – Por falar em presidentes, o Benfica foi ao longo da sua história, e enquanto durou o regime anterior, quase sempre presidido por ilustres oposicionistas. Félix Bermudes foi perseguido pela PIDE, e no consolado de Tamagnini Barbosa o clube chegou a correr o risco de ser encerrado pelo governo por alegadamente estar tomado por “conspiradores”. Um outro presidente (Júlio Ribeiro da Costa) teve mesmo de se demitir para que o clube não fosse mais penalizado pelo regime, dada a sua forte conotação política com a oposição. O Benfica chegou a ter um presidente operário (Manuel Afonso, também, naturalmente, oposicionista), e foi, de longe, o clube desportivo que mais problemas criou a Salazar, como de resto seria de esperar numa agremiação tão marcadamente popular desde a sua fundação.

5 – Os órgãos sociais do Benfica sempre foram eleitos democraticamente, o que por diversas vezes foi alvo do olhar recriminador da PIDE, que acompanhou os actos eleitorais e assembleias-gerais bem de perto. Durante muitos anos foi o Benfica a única das grandes instituições do país onde o poder era escolhido através de voto livre e democrático. Nem o Jornal do clube escapou à perseguição, sobretudo quando tinha à sua frente José Magalhães Godinho.

6 – Os poderes públicos apoiavam tanto os “encarnados” que em 1956 escolheram o Sporting – por convite – para participar na primeira edição da Taça dos Campeões Europeus, apesar do campeão da época anterior ter sido o Benfica.

7 – O Estádio das Antas, construído com fortíssima ajuda do regime, e financiado por gente a ele ligada, foi inaugurado num dia 28 de Maio, data em que Gomes da Costa havia partido do norte em direcção a Lisboa para instalar a ditadura em Portugal, 26 anos antes. Curiosamente, o Benfica estragou a festa e venceu por…2-8 !!Pelo contrário, o Estádio da Luz foi construído (muitas vezes literalmente) pelos sócios do Benfica, sem recurso a quaisquer subsídios, e permitiu ao clube acabar com os sucessivos despejos a que foi sujeito e a que foi estoicamente resistindo. Curiosamente, o estádio que o Benfica utilizava antes tinha sido arrendado pelo Sporting (clube da aristocracia lisboeta), que então lhe chamava Estádio 28 de Maio. O Benfica não só fez questão de o inaugurar num dia 5 de Outubro, como lhe mudou o nome, designando-o apenas por “Campo Grande”.

8 – No início dos anos quarenta, época dourada de Salazar, o F.C.Porto beneficiou da ajuda dos seus influentes homens do poder para, através de dois cirúrgicos alargamentos, evitar cair para a segunda divisão, após se ter classificado em terceiro lugar no seu campeonato regional, que na altura apurava as equipas (os dois primeiros) para a prova nacional. Mal se sabia que, décadas e décadas depois, seria novamente a sua influência a evitar a descida, agora por motivos bem diferentes, e bem mais nebulosos.

9 – Como referiu Manuel Alegre – insuspeito de salazarismo – os relatos dos jogos do Benfica, e as suas vitórias, eram motivo de grande regozijo entre os exilados políticos. O Benfica era mesmo, para alguns deles, o único motivo de orgulho no seu país.

10 – O Benfica foi campeão europeu com jogadores que faziam parte dos movimentos de libertação das colónias, como Santana e Coluna. Obviamente que Salazar não teve alternativa senão engolir o sapo e colar-se ao êxito do clube, aproveitando-se dele para efeitos políticos.

11 – Nas comemorações da vitória aliada na segunda guerra mundial, toleradas por Salazar apenas por receio de represálias dos vencedores – sobretudo a tradicional aliada Inglaterra – viram-se nas ruas bandeiras de França, dos Estados Unidos, de Inglaterra e…do Benfica, estas naturalmente substituindo as da URSS, e utilizadas por oposicionistas comunistas.

12 – O hino do Benfica (“Ser Benfiquista”) cantado por Luís Piçarra não é o original do clube. O primeiro hino, composto por Félix Bermudes, chamava-se “Avante Benfica” e foi silenciado pelo regime.

13 – O Estádio da Luz passou 17 anos, desde a sua fundação, sem ser utilizado pela selecção nacional. Só já nos anos setenta se disputou o primeiro jogo de Portugal num estádio benfiquista. Nunca se jogou a final da taça na Luz ou em qualquer outro estádio utilizado pelo Benfica, ao contrário do que aconteceu nas Antas, onde o F.C.Porto disputou (em casa) nada menos que três finais, antes e depois do 25 de Abril.

14 – O primeiro grande escândalo de arbitragem na história do futebol português valeu um título ao F.C.Porto. Estávamos em 1939, no auge da ditadura salazarista, e no jogo decisivo os “vermelhos” viram um golo anulado nos últimos instantes, que valeria a vitória e o título. Também a história Calabote (que foi irradiado) está mal contada e de resto redundou num outro título para o F.C.Porto, que aliás já na altura demonstrava uma propensão enorme para se envolver em questões desta natureza.

15 – Ao longo dos anos do regime ditatorial, as situações em que os poderes públicos e federativos prejudicaram o Benfica administrativamente sucederam-se. Uma das mais conhecidas foi a não autorização para adiar o jogo da Taça de Portugal frente ao V.Setúbal, marcado para o dia seguinte à final de Amsterdão em 1962. Mas houve outras, como a marcação da repetição de um jogo para três dias antes da tal jornada de Calabote, obrigando o Benfica a um desgaste adicional que lhe poderá ter custado o título.

16 – Nunca em tempo algum o Benfica teve um seu sócio, ou mesmo adepto, como presidente de organismos ligados à arbitragem do futebol. O F.C.Porto é o que se sabe, e o Sporting também não se pode queixar pois tem agora lá um “emblema de ouro”.

17 – O Benfica conquistou mais títulos nacionais nas modalidades extra-futebol em democracia (57), do que em ditadura (44). Ao contrário, por exemplo, do F.C.Porto, que à excepção do caso específico do hóquei em patins, tem mais títulos antes da revolução de Abril do que depois (25 antes -19 depois).

18 – O Benfica tem entre os seus adeptos gente de todos os estratos sociais e sectores políticos. Mas convenhamos que Álvaro Cunhal, José Saramago, Xanana Gusmão, António Guterres, Jerónimo de Sousa, António Vitorino de Almeida, Artur Semedo, Manuel Alegre, Miguel Portas e muitas outras figuras da esquerda portuguesa, simpatize-se mais ou menos com elas, nunca seriam seguramente adeptos de um clube de algum modo relacionado com o regime fascista.

19 – É curioso que o Benfica, tendo adeptos espalhados pelo país e pelo mundo, tem maior expressividade precisamente nas zonas mais conhecidas pelo seu combate ao fascismo, ou seja Alentejo – onde a percentagem de benfiquistas é absolutamente esmagadora – e cintura industrial de Lisboa, nomeadamente a margem sul do Tejo. Pelo contrário, o F.C.Porto tem a grande maioria dos seus adeptos concentrados na região norte, pouco conhecida pelo combate democrático – pode ser injusto para muitos dizê-lo, mas a verdade é que a maioria dos agentes da PIDE eram nortenhos, e a maioria dos detidos eram provenientes justamente das zonas onde existe maior expressão do benfiquismo.Nos anos quentes da reforma agrária, no pós-revolução, sei de pessoal das UCP’s alentejanas que se organizava em excursões para os jogos internacionais do Benfica.

20 – Seria interessante também fazer a contabilidade dos adeptos e sócios do Benfica nas ex-colónias. Como seria possível haver tantos benfiquistas, por exemplo, em Angola e Moçambique, se o clube tivesse alguma conotação com o regime que durante anos lhes negou a independência e lhes deu a guerra?

in FC-Porto-a-Mentira-Desportiva

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12 Responses to “O mito e a realidade!”


  1. 04/11/2010 às 12:29

    mas achas que alguém vai ler isto?

    fdx…

    • 2 Tosta Mística
      04/11/2010 às 12:44

      eeeeeeeeeeu!

      😦

      (E gostei)

  2. 04/11/2010 às 13:06

    Excelente. Espero que não te importes mas vou postar isto lá no meu pasquim. Deve ser lido pelo maior número de pessoas possível!

    • 4 tabakaebola
      04/11/2010 às 15:03

      força…é do povo… 🙂

  3. 5 aguia
    04/11/2010 às 14:01

    Eu li e gostei, o que prova que aqui tambem pode cheirar bem!

    • 6 tabakaebola
      04/11/2010 às 15:02

      cheira bem..cheira bem…cheira a Lisboa…lálalálá….

  4. 7 tabakaebola
    04/11/2010 às 15:06

    Fonte: BancadaDeImprensa
    Image:

    Parece impossível, mas não. É mesmo verdade. Foi a receita do clássico de 3 de Abril de 1960 que salvou o FC Porto do descalabro financeiro. Pelo meio houve um dirigente portista que pediu auxílio financeiro aos dirigentes Benfiquistas. Acabou despedido. Entre 1959 e 1960, período em que se sagrou campeão nacional pela última vez antes de uma seca de 19 anos, o FC Porto perdeu 7 mil sócios. Luís Ferreira Alves, o presidente, demitiu-se e lamentou-se no seu último dia: “O FC Porto paga mal a quem o serve.” Semelhanças com as últimas lamentações de Vitor Baia? Muitas. Nesta época o FC Porto tinha cerca de 500 contos ordenados em atraso com os seus futebolistas, uma barbaridade para a época. Com a demissão de Luís Ferreira Alves coube a uma comissão administrativa presidida por Ângelo César, tomar contas dos destinos do clube. Aproximava-se o FC Porto-Benfica para a 23ª jornada do campeonato nacional, a 3 de Abril de 1960, e Aníbal Abreu, dirigente azul e branco da referida comissão, emitiu um telegrama de pedido de ajuda financeira. O destinatário era Maurício Vieira de Brito, presidente do Benfica, o conteúdo era simples: que os encarnados prescindissem da sua parte da receita a favor do desvalido FC Porto. Ângelo César, ao tomar conhecimento do sucedido, reagiu de pronto e com enorme dignidade (não se esqueçam que eram outros tempos) enviou também ele um telegrama a Aníbal Abreu: “Acabo de tomar conhecimento do telegrama enviado ao presidente do Benfica. Rogo V. Exa. apresente pedido de demissão por esta via. Se não, demiti-lo–emos. O FC Porto, embora atravesse uma situação francamente delicada, não precisa de pedir esmolas. A atitude do sr. Aníbal Abreu deixou-nos a todos indignados e o Benfica terá achado o seu pedido uma autêntica loucura, um disparate sem pés nem cabeça.”Dia do clássico. O Presidente da comissão Ângelo César foi ao balneário da sua equipa e pagou todos os ordenados em atraso. Talvez em dinheiro vivo, porque penso que na altura ainda não estavam instituídos os pagamentos em géneros. O que é certo é que os jogadores portistas galvanizaram-se e quando a derrota parecia certa, o SL Benfica vencia 2-0 a 3 minutos do fim, Roberto (que ironia…) aos 87” e Humaitá aos 90” alcançaram um empate muito sofrido. No jogo das receitas os adeptos deixaram 780 contos. O FC Porto ficou com a sua parte, 490 contos e o Benfica ficaria com 155 contos. Sim, na altura, como agora a Federação era uma sugadora de dinheiro, ficou com o remanescente, 135 contos. No final, feitas as contas e com orgulho restabelecido, o FC Porto seguiu o campeonato onde acabaria por ser 4º classificado com 30 pontos. O 3º seria o CF Belenenses (36 pontos), o 2º o SC Portugal com 43 e o Campeão Nacional, SL Benfica com 46 pontos. Classificação pouco provável de acontecer esta época. Não, não me estou a referir ao CF Belenenses.

    (*) Treinador Benfiquista que trocara o azul pelo vermelho no Verão de 1959

    • 8 Tosta Mística
      04/11/2010 às 15:59

      Grande Mauricio Vieira de Brito, não cedendo “os nossos” 155 continhos!

      • 9 tabakaebola
        04/11/2010 às 17:36

        se fosse hoje…

  5. 04/11/2010 às 18:31

    Esse fabuloso texto é do Luís Fialho do blog Vedeta da Bola.

    • 11 tabakaebola
      04/11/2010 às 18:34

      MT BEM…O SEU A SEU DONO…

  6. 12 ela
    04/11/2010 às 19:25

    O SEU A SEU DONO !

    Muito bem, JNF.

    Esse texto e muitos mais (textos, videos, etc…) foram reunidos pelo Ziablo aqui :
    http://chamagloriosa.blogspot.com/2010/10/megapost-corromper-desde-1893.html


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